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Dentro de minha ingenuidade política, acredito que o voto nulo seja a maior prova de covardia que o povo brasileiro possa dar num processo eleitoral. No meu entender, essa prática não se constitui em protesto, mas em omissão.
Abaixo, um discurso do Senador Cristovam Buarque (candidato à presidência pelo PDT), proferido no plenário do Senado no dia 10 de abril de 2006.
Em seu site http://www.cristovam.com.br você pode ler outros e entender o motivo pelo qual o Senador tem meu voto.
"...O que quero chamar a atenção é de que há outras formas de corrupção. Outra ainda mais grave do que a do "mensalão" é a corrupção permanente nas prioridades (...), uma espécie de corrupção do "seculão".
Há cinco séculos que temos essa corrupção, em que os recursos públicos não vão para libertar, emancipar, corrigir as distorções que a sociedade brasileira tem. Mas ainda há uma outra corrupção, que é a corrupção psicológica, que estamos vivendo. De tanto serem repetidas mentiras estamos criando no imaginário brasileiro, na população, na maneira como todos pensam, sobretudo nos jovens, a corrupção de pensar que não há política sem mentira e que a mentira é a regra a ser seguida por todos os políticos.
É sobre esse tipo de corrupção psicológica, de repetição de mentiras, que quero falar, lembrando algumas bem recentes. Por exemplo, a mentira de dizer que o mensalão não existiu. Isso foi repetido, insistido, quando de fato está aí a prova de que houve o mensalão, de que houve o pagamento repetido a Parlamentares para que votassem conforme o Governo precisava. Não apenas houve mensalão, mas também a mentira de dizer que não houve.
Outro exemplo é a mentira feia da quebra do sigilo bancário do caseiro. A quebra do sigilo foi uma corrupção, porque foi um crime, mas foi também corrupção mentir dizendo que não houve a quebra do sigilo. Como é que a nossa juventude vê o Presidente da Caixa Econômica Federal abrir uma comissão de inquérito, dar o prazo de 15 dias para descobrir quem quebrou o sigilo, se ele próprio tinha quebrado esse sigilo?
A corrupção da quebra do sigilo se alia à corrupção da mentira de dizer que o sigilo não tinha sido quebrado pelo Presidente da Caixa. Depois, houve a mentira de dizer que quem determinou a quebra do sigilo tinha sido o Ministro da Fazenda. Essa mentira pouca gente vê como uma forma de corrupção tão criminosa na política, quanto a quebra do sigilo em si é um crime diante do Código Civil.
Mas, no fundo não são só essas. Se analisarmos mais, há aquela mentira de que as dezenas de milhares de dólares carregados em uma cueca eram para abrir um negócio. Para abrir negócio não precisa carregar dinheiro na mão, quanto mais na cueca, como se viu. É claro que era um crime político o que estava acontecendo ali! É claro que era dinheiro sujo, senão não se carregaria naquele lugar! Mas também há a mentira de se dizer que a finalidade do dinheiro era legítima. Se o dinheiro tivesse sido levado em outro lugar, e não na cueca, a mentira continuaria igual.
Há a mentira de um líder do PT que disse não ter recebido qualquer benefício de um determinado empresário e, de repente, surpreende-nos por ter na garagem de sua casa um Land Rover doado pelo empresário.
Essa mentira é uma corrupção tão grave naquele que exerce um cargo público quanto receber um presente de um empresário. Mas, às vezes, pensamos que a corrupção é apenas o deslocamento de dinheiro de um lugar para outro, e não a mentira de dizer que esse deslocamento não houve. A mentira na política é uma forma de corrupção tão grave quanto se apropriar do dinheiro público. Acostumamo-nos tanto a ver tudo em função do dinheiro e da economia, que não tratamos a mentira como uma grave forma de corrupção política.
E a corrupção da mentira degrada o sistema político brasileiro, desagrega a confiança no próprio Presidente da República em torno do qual as mentiras tenham ocorrido. Esta semana provavelmente virá aqui o Ministro da Justiça que está negando que participou do acobertamento, durante alguns dias, da quebra do sigilo. Veja bem, se o Ministro participou daquilo é algo gravíssimo! No entanto, se, além de ter participado, ele mentiu, é um agravante adicional! E é essa agravante adicional da mentira que estou chamando atenção aqui: a corrupção na psicologia da opinião pública. Isso passa a ser um exemplo para as crianças na escola, na família, passa a ser um exemplo para a juventude, um exemplo nocivo.
Mas as mentiras que temos visto nos últimos anos não são apenas aquelas relacionadas à corrupção no comportamento dos políticos. Há uma corrupção também na mentira de prometer algo que não será feito ou que não foi feito. E é uma mentira também dizer que se fez o que não foi feito. É outra mentira também dizer que o que foi feito tem um tamanho maior do que se imagina e vai ter. Por exemplo, o Programa Bolsa Família tem uma dimensão - devemos reconhecer - que é um avanço administrativo em relação ao que fez o Governo FHC com os seus programas de bolsas. Mas é uma mentira dizer que é um programa emancipador da realidade social do povo brasileiro. O Bolsa Família, se não vier acompanhado (...) de um programa educacional revolucionário para todos, continuará sendo para sempre um programa de assistência, exigindo cada vez mais recursos e produzindo cada vez menos efeito. É uma mentira dizer que o Bolsa Família, como está, resolverá qualquer problema do Brasil. E essa mentira é tão grave quanto mentir dizendo que não tem nada a ver com a quebra do sigilo bancário do caseiro.
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continua no próximo post.